A Saga até Machu Picchu

Ir para Machu Picchu, na minha experiencia, não foi nada fácil. Acabou virando o tipo de aventura que vou contar para os meus netos.

Chegamos em Cusco já sabendo que encontraríamos alguns amigos feitos no Wild Rover de La Paz, brasileiros que estavam mochilando por Bolivia e Peru como nós. Então nosso grupo de 4 (eu, Débora, David e Phil) se juntou com outros 5 brazucas e fomos fechar o pacote com a agência que o Vitor e o Raoni tinham usado nos dias anteriores para fazer o passeio do Vale Sagrado dos Incas, disseram que tudo deu certo, que o serviço era bom.

Lá negociamos com um peruaninho baixinho e engraçado que nos vendeu o pacote de carro, incluindo:

Transporte com almoço no caminho até a hidrelétrica onde um guia nos aguardaria para fazer a trilha de 2 horas seguindo o trilho do trem até Águas Calientes, lá teríamos jantar, café da manhã e acomodação incluídos. Na manhã seguinte andaríamos até Machu Picchu com o guia, que nos daria o tour pela cidade sagrada. Na parte da tarde pegaríamos o trem de volta para a hidrelétrica onde nosso carro nos aguardaria para voltar a Cusco.

Bom, esse era o plano.

Acho que não preciso nem dizer que tudo saiu bem diferente do que imaginávamos. Antes de contar tudo preciso que vocês anotem algumas informações.

Antes de viajar soube que em Machu Picchu há uma mesa com carimbos da cidade sagrada para os turistas carimbarem seus passaportes com a passada por lá.

Antes de viajar soube que em Machu Picchu há uma mesa com carimbos da cidade sagrada para os turistas carimbarem seus passaportes com a passada por lá. Guardem essa informação.

Note que em nenhum momento foi citado que para chegar em Machu Picchu de Águas Calientes você sobe 1643 degraus irregulares de pedra no meio da floresta. Guardem essa informação também.

Acordamos cedo e seguimos para a plaza principal de Cusco onde nosso carro nos aguardava. Eu imaginava um ônibus de turismo, juro. Mas o que apareceu foi uma van bem desconfortável. Primeira decepção.

Seguimos viagem, parando em alguns hotéis de quem provavelmente pagou mais que nós (nosso investimento foi de 102 dólares pelo pacote citado acima). Na van estávamos nós, os nove brasileiros, e mais alguns poucos gringos que se incomodaram com o português fluente falado alto a viagem inteira. Paramos em um restaurante no meio da estrada para o almoço. O lugar era relativamente sujo, mas pela quantidade de grupos ali presentes dava para ver que a maioria das agencias faz o mesmo percurso. Dali em diante a estrada foi ficando cada vez pior, mesmo para nós que vinhamos das estradas de barrancos da Bolívia, a sensação era a de estar de volta à Estrada da Morte em La Paz. Passamos por uma pontezinha que ali eu jurei que ia morrer, tinha certeza. O motorista parecia um mudo, não estava nem um pouco disposto a acalmar ninguém e só ficava ouvindo suas músicas peruanas esquisitas no som do carro. “Depois, quando chegamos a Lima fiquei sabendo que esses carros turísticos vivem caindo nessa estrada, pelo menos um ao mês”. A minha dica: Vá de trem!

As vistas são realmente lindas mas é extremamente cansativo passar o dia inteiro nessa van, além da dor nas costas e do desconforto dos bancos. Filmei um minuto do percurso para vocês terem uma ideia (se liga na mega música peruana ao fundo! E ai de quem pedisse pra mudar!).

Foto das estradas enquanto ainda são asfaltadas.

Foto das estradas enquanto ainda são asfaltadas.

Chegamos às 16h na hidrelétrica, onde nosso guia nos aguardava com uma bandeirinha. Ele deu as principais instruções: sigam o trilho  do trem, saiam de cima do trilho quando ouvirem um trem vindo, subam as primeiras escadas a direita e depois podem ir reto o caminho inteiro e eu vou aguardar a todos no final.

A trilha era plana por todo o percurso (exceto a tal escada) e tinha uma duração de mais ou menos 2h. Nós não podíamos demorar muito porque logo escureceria. Começou aqui o segundo capitulo dessa história…

O caminho é realmente breath-taking. Envolto em montanhas maravilhosas e o som do rio acompanha todos os nossos passos. Vale a pena fazer a trilha se você optou por não fazer a trilha inca de três dias, como eu. No nosso caso, já começando o mal agouro desse percurso, choveu a trilha inteira.

IMPORTANTE: Como vocês podem ver nas fotos, levem suas “garrafinhas” de 2L de água, acho que nem preciso dizer que não tem onde comprar no meio do mato.

Os brazucas a caminho do Machu Picchu

Os brazucas a caminho do Machu Picchu

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Seguindo o lindíssimo trilho do trem.

Seguindo o lindíssimo trilho do trem.

Quando chegamos em Águas Calientes já estava escuro e a estrada não tem iluminação!

A cidade é uma gracinha, cortada pelo rio que nos acompanhou o caminho inteiro e subindo a montanha. Não existem carros em Águas Calientes, apenas os ônibus que sobem até Machu Picchu (e que são muitos) e ficam bem na entrada da cidade.

Seguimos o guia pela rua principal que é uma enorme ladeira, até um restaurante amplo, não muito bonito, com um hostel nos fundos. Ele tentou nos alojar lá e foi a nossa primeira frustração. O guia nem se quer sabia aonde íamos dormir!

Ele, percebendo nossa insatisfação, acomodou a todos no restaurante, recolheu nossos passaportes para comprar as passagens de trem para o dia seguinte (segunda frustração: o trem não estava comprado!) e mandou o outro cara que trabalhava com ele procurar hostels. Por fim nos explicou que poderíamos pegar o ônibus até Machu Picchu, por 10 dólares ou acordar bem cedo e encontrá-lo para subir a pé. Já não tínhamos feito a trilha inca, nos sentimos no dever de subir a pé até lá.

Nós estávamos completamente famintos. O cardápio, como a maioria na Bolivia e no Peru, era um preço fixo (nesse caso já estava incluso no pacote) para uma entrada, um prato principal e uma sobremesa, todos individuais e geralmente não muito bons. Cada um escolheu os seus pratos e batemos papo. Cansados, sabendo que teríamos que acordar as quatro da manhã no dia seguinte e apreensivos com a falta de organização dos guias.

Depois do jantar eles voltaram com nossos passaportes e nos levaram ladeira acima. Quando eu digo ladeira acima não estou falando de mais algumas quadras, subimos a cidade inteira! O hostel que eles encontraram ficava no topo da cidade e quando chegamos lá não tinha ninguém para nos atender!

O guia ligou para a pessoa responsável, que devia ser algum conhecido dele. E foi nos acomodando nos quartos sem ninguém do hostel aparecer. Os quartos eram bons, grandes e com camas confortáveis, tinha água quente nos chuveiros e deu pra sobreviver. Ou vai ver estávamos tão cansados que não demos muita bola para nada. Ficamos em um quarto para quatro pessoas, eu, a Debora, o David e o Phil (nosso grupo original).

DIA SEGUINTE:

Acordamos às quatro da manhã de uma manhã chuvosa ansiosos pra conhecer Machu Picchu. O guia tinha nos dado um kit na noite anterior que supostamente era nosso café da manhã, tinha um biscoito, uma fruta e um suquinho eu acho. Não lembro direito. Optamos por não levar as mochilas, deixar para buscá-las no hostel na volta (a melhor decisão que já tomamos na vida, o Phil levou a dele e se arrependeu muito).

Seguimos a rua principal de Águas Calientes até o principio da cidade onde o guia nos aguardava já com um grupo grande de pessoas. Mais uma vez ele explicou o caminho e disse que aguardaria a todos no topo. Ele seguiu na frente e foi bem mais rápido que nós, então logo sumiu de vista. Só nos restava subir, subir e subir mais.

Esse provavelmente foi o percurso mais difícil da minha vida. Uma escadaria de 1643 degraus de pedra íngremes montanha acima. Subimos, subimos e subimos mais e não chegamos. O percurso é cortado em vários pontos pela estrada dos ônibus que circunda a montanha, o que é absolutamente desmotivante, pois cada vez que passávamos pela estrada víamos aquelas pessoas confortavelmente sentadas no ar condicionado e nós sem conseguir mexer as pernas direito. Machu Picchu fica a 2.430 metros de altitude, o ar fica difícil de respirar, você cansa mais rápido, o esforço para subir as escadas é muito maior do que o normal. E não chegávamos nunca!

Passamos pelo portão principal e paramos em um monte de terra. Então o guia começou a falar: “Machu Picchu é como uma mulher… Você tem que acaricia-la… Tem que implorar para que ela se mostre para você. Então vamos agora pedir para Machu Picchu se mostrar para nós” – e apontou para trás, para as nuvens, para o nada.Mas nós finalmente chegamos, encharcados da chuva e exaustos. Na entrada reagrupamos com o guia e ele nos entregou nossas entradas para o parque e pediu novamente nossos passaportes que enquanto ele fazia o tour um outro cara da equipe ia tentar novamente comprar os bilhetes do trem (terceira frustração: como assim o trem não estava comprado DE NOVO?!). Nessa hora eu me irritei de verdade. Lembram das informações que pedi para vocês guardarem lá em cima? Eu queria o carimbo, eu queria MUITO aquele carimbo no meu passaporte. Olhei nos olhos daquele peruano e fiz ele me garantir que até o fim do tour o meu passaporte estaria de volta (pois a mesa dos carimbos ainda não estava aberta, só liberavam ela às nove da manhã e ainda deviam ser, sei lá, umas sete). Ele me fez todas as promessas e seguimos.

Era tanta neblina, tanta chuva que eu demorei alguns segundos para entender o que era aquilo, que aquelas nuvens eram Machu Picchu (frustração número quatro: eu tinha chegado lá para não ver p**** nenhuma).

Nossa primeira vista da cidade sagrada – brochante.

Nossa primeira vista da cidade sagrada – brochante.

O guia começou o tour assim mesmo. Passamos pelas casinhas, pelo relógio de sol e em um momento tivemos que nos abrigar nas únicas construções com telhado de lá por que a chuva realmente mandou ver. Então eramos muitos turistas para pouco espaço a ser dividido com muitas lhamas (que também não queriam ficar na chuva!).

Eu e minhas amigas lhamas nos protegendo da chuva em Machu Picchu.

Eu e minhas amigas lhamas nos protegendo da chuva em Machu Picchu.

A cidade sagrada dos incas se mostrava para nós e era linda, deslumbrante, magnifica em cada pequeno detalhe, em cada pedra no topo daquela montanha gigantesca e a sensação é que você não consegue parar de se perguntar “como foi que eles fizeram isso?”.

Mas depois disso até que as coisas andaram, o tempo abriu, conseguíamos enxergar aonde pisávamos e finalmente vimos ela! A cidade sagrada dos incas se mostrava para nós e era linda, deslumbrante, magnifica em cada pequeno detalhe, em cada pedra no topo daquela montanha gigantesca e a sensação é que você não consegue parar de se perguntar “como foi que eles fizeram isso?”.

Bom, aí você já está imaginando o final feliz dessa história, certo? ERRADO.

Acabou o tour, passeamos mais um pouco, tiramos mais fotos, exploramos e nos dirigimos a saída. Fui logo atrás do guia procurando saber do meu passaporte. E ele, com a cara mais lavada do mundo veio me dizer que não estava com ele.

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Isso resultou na minha primeira discussão oficial em espanhol. Vocês podem imaginar o nível. Virei bicho, gritei, xinguei, queria chutar ele. Qualquer coisa que me fizesse ter o meu carimbo de Machu Picchu no passaporte.

Depois de muita discussão ele ligou para um dos “comparsas” dele e mandou trazer o meu passaporte (mandei levar o dos meus amigos também). Me deu a palavra dele que ele mesmo carimbaria e levaria de volta. Que ia ficar aguardando mas que eu tinha que começar a descer por causa do tempo para pegar o trem. Me dei por satisfeita. E nessa hora já estava com tanta raiva que resolvi descer a escada a pé (claro que na subida me prometi que desceria de ônibus, que dez dólares não eram nada). A descida foi bem mais fácil (talvez pelo meu sangue quente, ou simplesmente porque pra descer todo santo ajuda), em cerca de 35 minutos estávamos lá em baixo. Mas nos últimos degraus eu dei um jeito no pé. Fui sentindo dor até Águas Calientes.

Nos acomodamos, já com nossas mochilas, no mesmo restaurante da noite anterior. Todos ligeiramente ansiosos com tudo que estava dando errado. O tempo passando, a hora do trem chegando e nada do guia.

Já quase na hora do embarque vem ele com o bolo de passaportes e as seguintes afirmações:

  1. Não tem mais bilhetes para os trens.
  2. O carro de vocês vai aguardar até as 16h, quem quiser ir embora terá que fazer a trilha de duas horas pelos trilhos novamente. Quem não quiser fazer a trilha pode ficar em Águas Calientes por conta própria e dar o seu jeito para ir embora outro dia.
  3. Não teve carimbo em passaporte nenhum.

Eu queria matar ele. Preciso numerar a frustração número cinco?

Minhas pernas doíam. Minha raiva borbulhava. Eu queria ficar em Águas Calientes e mandar aquele cara pra puta que pariu. Mas ninguém quis ficar comigo. Então fomos nós pro meio do mato de novo. Tomei um dorflex, respirei fundo, coloquei os fones de ouvido com um eletrônico no máximo e fui, determinada até o fim da trilha.

Chegando no carro o guia não queria nos devolver o dinheiro do trem que sabíamos ser de 18 dólares porque era isso que queriam nos cobrar caso decidíssemos ir da hidrelétrica até Águas Calientes de trem. Depois de muito discutir e do motorista da van reclamar que estava ficando tarde, ele nos devolveu doze dólares e tivemos que nos dar por satisfeitos.

Pé na estrada.

Ou não. A chuva voltou a cair e o caminho de volta estava completamente parado. Os carros turísticos não andavam, foi escurecendo, a fome apertando, o cansaço matando e nós parados no meio do nada no Peru. Você sabe que a situação é preocupante quando todo mundo começa a descer dos carros.

Com o céu já escuro eles conseguiram liberar a estrada, que tinha desabado em um pedaço e estava cheia de pedras, não suficiente, caía lá de cima uma verdadeira cachoeira que, se eu não tivesse visto os carros da frente passarem, juraria que  nos empurraria barranco abaixo.

Horas de viagem depois, chegamos a uma gélida Cusco, exaustos, imundos e famintos.

Maaaas… Como toda história deve ter final feliz: descobrimos no meio do caminho para o hostel uma cantina italiana aconchegante e comemos as melhores pizzas de toda a viagem com uma boa garrafa de vinho e rimos de tudo o que passamos. Afinal, conhecemos Machu Picchu e tudo acabou em pizza!

Já foi em Machu Picchu? Tenho certeza que a sua aventura é tão única quanto! Conta aí em baixo

Beijinhos,
Nanda Maia

{Post originalmente publicado no meu primeiro blog – Champanhe e Gentileza}

{Fotos da nossa viagem by Débora França}

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