Minha vida com Endometriose – Cap. 1: O Diagnóstico

Sempre tive muitas cólicas. Do tipo que não vai à escola, fica imprestável na cama com uma bolsa de água quente e muitos remédios. Até vomitava em praticamente todos os meus ciclos menstruais da adolescencia.

Mas até aí eu achava que simplesmente era uma pessoa que sentia muitas cólicas, como dizia o meu ginecologista “ser normal”. Depois dos dezoito anos a coisa foi melhorando… Eu conseguia conviver com a dor. Às vezes me questionava se não tinha simplesmente me acostumado à ela. Nesse período comecei a sentir dores após as relações sexuais com o meu namorado à época, tinha diárreia quando menstruava também.

Quando completei 21 anos, já sem namorado, voltei a sentir fortes dores, inclusive fora do período menstrual, mas como sempre tive as dores, achei que era normal “da mulher” (não caia nessa! Procure um médico!).

Estava fazendo uma ultrassom de rotina quando ouvi o nome da doença pela primeira vez. A médica que fez o procedimento terminou o mesmo dizendo “você devia pedir para fazer uma ressonancia. Parece que você tem endometriose”. Como boa garota do século XXI, corri para a internet para entender o que era aquilo. E o susto foi enorme: infertilidade, fortes dores, cirurgia, menopausa induzida…

Eram muitas informações para a minha cabeça!

Após a ressonancia, o diagnostico era certo e claro. Eu estava em um estágio avançado da doença. É nessa hora que começa a famosa depressão da endo. Eu meio que perdi o chão. Sentia dores constantes, cada vez piores, não queria falar com ninguém e perdi completamente a vontade de viver, preferia morar no meu sofá com a minha própria auto-piedade, sentindo dor o dia inteiro.

E todos me deram a mesma resposta ao ver a minha ressônancia: “você tem que tirar esse útero o quanto antes”

A minha ginecologista falou que eu precisava procurar um especialista e me indicou o melhor do Rio de Janeiro, que não aceitava plano de saúde e, na época (2011), cobrava 500 reais só pela consulta. Preferi buscar outras opiniões primeiro. Fui em todos os médicos indicados sobre o assunto que encontrei na internet, no guia do plano de saúde, através de indicações e todos me deram a mesma resposta ao ver a minha ressônancia: “você tem que tirar esse útero o quanto antes”. Mas pára tudo!! Eu tinha 21 anos!!!

Quando você busca saber o que acontece com quem tira o útero os sintomas, além da infertilidade total, são: falta de lubrificação, pele e cabelos ressecados, tendência a engordar… Tudo isso me assustava muito. E quanto mais a esperança se esvaia do meu mundo mais eu me afastava de tudo e todos. No total procurei seis médicos (e todos me deram a mesma resposta! Alguns sem o menor carinho, simplesmente “tira. Vamos marcar a cirurgia?”.

Minha mãe, que não mora no Rio, começou a se desesperar e disse que eu tinha que ir no tal médico caríssimo que era uma assumidade no assunto. Não era possível que uma menina de 21 anos não tivesse nenhuma outra esperança além de tirar toda e qualquer chance de ser mãe de dentro de sí.

É aí que começa um dos dias mais inesqueciveis da minha vida, um dia que nunca mais me deixou ouvir Let it Be dos Beatles da mesma forma.

Fui lá com a minha tia, no caminho já chorava incessantemente, contando que ninguém entendia, que eu me sentia sozinha, que não sabia o que fazer… E paguei os quinhentos reais. O consultório era chiquerrímo e tocava música ao fundo. Quando sentamos na frente dele e mostramos o exame ele teve uma reação bem parecida com a da maioria: “É, você está em uma situação bem avançada da doença”. Até aí eu já tinha visto tantos médicos arregalarem os olhos para os meus exames que ele não me comoveu.

“Mas nós podemos fazer a cirurgia sim. Não dá para saber se você vai ficar boa na primeira, talvez tenhamos que fazer mais de uma…”

Nesse momento, tocava ao fundo a música dos Beatles, que falei antes. E nunca na minha vida uma música coube tão bem a um momento como nesse. Vocês conhecem a letra?


 

Letra

When I find myself in times of trouble
Mother mary comes to me

Speaking words of wisdom, let it be

And in my hour of darkness
She is standing right in front of me

Speaking words of wisdom, let it be

Tradução

Quando eu me encontro em momentos difíceis
Mãe Maria vem para mim

Falando palavras de sabedoria, deixe estar

E nas minhas horas de escuridão
Ela está em pé bem na minha frente
Falando palavras de sabedoria, deixe estar

 

Bom, ele falou de todos aqueles tratamentos que eu já havia lido na internet: cirurgia, zoladex… E falou que a cirurgia sairia por vinte e cinco mil reais (!!!), com chances de ter que fazer outra depois.

Como eu já estava com o meu emocional completamente abalado, chorava copiosamente enquanto ele falava e a música tocava. Não sabia se ficava feliz por alguém no mundo querer me operar, ou se ficava triste por provavelmente fazer a minha mãe vender o seu carro para pagar pela cirurgia e tudo isso misturado aos horríveis sentimentos de “eu nunca vou ser mãe, eu só tenho 21 anos, por quê? Por quê comigo? Por quê agora? Por quê Deus, por quê?

Acho que só quem já passou por um diagnostico de doença crônica e/ou muito grave sabe o quanto essa palavra se repete na sua mente incessantemente.


 

Letra

Let it be, let it be
Let it be, yeah let it be

There will be an answer, let it be

And when the night is cloudy
There is still a light that shines on me

Shine on until tomorrow, let it be

Tradução

Deixe estar, deixe estar
Deixe estar, sim, deixe estar

Haverão respostas, deixe estar

E quando a noite está nublada
Há ainda uma luz que brilha em mim
Brilha até amanhã, deixa estar

Bom, a música acabou, a consulta também. Mas o meu choro não. Chorei o caminho inteiro até em casa. Talvez eu conseguisse operar (por uma mini fortuna) e depois ficasse em menopausa induzida por um tempo. O que também não era nenhuma perspectiva fantástica, já que o que se lia na internet sobre os efeitos do zoladex era devastador: queda de cabelo, fortes calores, pele e cabelos ressecados, enjôos, tonturas… Enfim, mais sofrimento.

Como disse antes, a minha mãe não mora aqui. Ela mora em São Luis – MA, e lá foi indicada a um médico que era considerado a assumidade no assunto. Ela, sempre mais esperançosa que eu (viva as mães!), pegou os meus exames e foi lá. O Doutor, esse eu faço questão de citar o nome: João Nogueira, não só aceitava o meu plano de saúde, como se dispôs a fazer a cirurgia. Disse que queria cuidar de mim.

Fui eu parar lá no Maranhão, totalmente descrente que um médico de lá pudesse fazer algo que algum aqui no Rio não pudesse.

Nessa época eu era um poço de raiva reprimida. Tinha ódio do mundo, não era gentil com ninguém, achava que não merecia ser feliz, ou qualquer coisa do tipo. Já pensava coisas como “é melhor tirar o meu útero mesmo, quem vai amar uma mulher como eu? Que vive com dor, que provavelmente nunca vai ser mãe, ninguém nunca mais vai me querer”. É, eu estava no estágio da raiva.

Mas o Doutor João Nogueira foi um amor, mesmo vendo toda a minha mágoa ele disse que me trataria, conversou comigo como nenhum médico tinha feito até então. Como se o meu caso fosse algo simples, algo que pode acontecer com qualquer mulher, que tem tratamento e que eu vou sim ser feliz.

Ele acendeu uma pequena lâmpada de esperança dentro de mim.

post-endometriose

Bom, essa história é muito longa e a cirurgia vai ficar para o capitulo 2. Escrevo para contar a minha histório porque quando estava nos estágios que citei acima eu buscava muitos relatos e eles me ajudaram muito. Escrevo para talvez entender melhor o que passei e ainda passo. Escrevo porque preciso me libertar dessa condição de auto-piedade, de sofrimento. Escrevo para compartilhar com outras mulheres que, no fim, tudo pode sim dar certo! E também para alertar aquelas que não sabem se tem endometriose, que é preciso acompanhamento constante! Essa doença é maligna e dolorosa e quanto antes fizermos o diagnóstico melhor para a saúde.

Obrigada por me ouvirem, o meu blog é um espaço aberto, quem quiser conversar, ou tirar dúvidas, ou simplesmente ser ouvida. Fique a vontade! Pode escrever um comentário ou os meus contatos estão lá no fim da página!

Aguardem! Semana que vem tem o capitulo 2 – A cirurgia! Beijinhos!

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