Minha Vida com Endometriose – Cap. 2: A Cirurgia

Oi! Hoje vou continuar a contar a minha história de luta contra a endometriose, essa doença maligna que atinge 7 milhões de brasileiras em fase reprodutiva.

No capitulo 1 contei sobre o diagnóstico e a fase depressiva que passei antes de encontrar um médico que quisesse me tratar de verdade. Porque consultar é fácil! Tratar, cuidar e se preocupar já são outros quinhentos…

A verdade é que a endometriose mexe muito com o psicológico da mulher, são diversas questões a serem trabalhadas ao mesmo tempo, a auto-estima, a possível infertilidade, as dores absurdas que podem trazer incapacidade para trabalhar e/ou estudar, os tratamentos com remédios fortes, tudo isso gira na cabeça sem parar e é tão dificil distinguir a luz no fim do túnel.

consciencia endometrioseFonte: Centro de Excelência em Endometriose

Eu viajei para São Luis para operar com o Dr. João Nogueira, que além de um anjo aceitava o meu plano de saúde na cirurgia. Mas qual não foi a minha surpresa quando recebi uma ligação do hospital um dia antes da data marcada me informando que o plano não autorizou a cirurgia? Eu já estava muito mexida, então qualquer coisa me fazia chorar.

Liguei para o plano de saúde a beira do desespero, e eles acharam que os inúmeros exames e consultas que eu fiz nos meses anteriores não eram suficientes para provar que eu realmente precisava desse tratamento. Que talvez eu pudesse me tratar com remédios. Chorei, contei a minha vida, pedi pelo amor de Deus, essas coisas que a gente faz quando está desesperado. E eles me disseram que o meu médico teria que mandar um laudo especificando a situação.

Sem problemas! O Dr. João Nogueira já estava em ação! Ele resolveu rapidinho. Mas não rápido o suficiente para que a cirurgia ocorresse no dia marcado. Então ao invés de terça, operei no sábado.

Fui para o hospital com um horrível pensamento na cabeça. Que o médico quando chegasse de fato no meu útero perceberia que não tinha jeito e retiraria ele. Que na verdade ele estava enganado, não viu a gravidade da coisa somente com os exames, que precisava ver para crêr, ou qualquer coisa do tipo. No fundo, eu estava desesperançada. Aquilo tudo parecia irreal depois de tantos médicos me dizerem que não existia solução para o meu problema.

Não contei para ninguém que eu “sabia” que isso ia acontecer. Até porque nessa época eu não falava muito com ninguém mesmo.

Quando acordei parecia que um pesadelo tinha acabado. Fosse para tirar o útero ou melhorar da endometriose, era o fim de um capitulo longo e doloroso demais, que eu não via a hora de acabar.

Fui levada para o quarto e a minha mãe e algumas amigas me aguardavam. Todos me tratando com muito carinho mas a sensação de que estavam me escondendo algo não saia da minha cabeça, só que eu não podia falar muito né? Fiquei lá, esperando alguém me dizer que na verdade eu já não tinha mais útero. Até que algumas horas depois a minha mãe não aguentou e pegou a minha mão como se fosse contar que alguém tinha morrido e disse: “filha, alguns minutos depois que você entrou na sala de cirurgia o médico me ligou. Ele me disse que a situação estava realmente muito crítica, que você estava com muitos miomas e que ele não conseguiria fazer por laparoscopia e teria que abrir a barriga. Ele pediu a minha autorização e eu dei”.

Pisquei algumas vezes, assimilei e perguntei “então ele não tirou o meu útero?!”

E ela respondeu: “não! Claro que não! Na verdade ele me chamou depois e mostrou um saco cheio de bolinhas de sangue. Ele ficou muito impressionado, foram retirados 72 miomas do seu útero, filha. A cirurgia foi muito longa, mas ele disse que fez com todo o carinho do mundo, tirou um a um e fez o melhor possivel.”

Eu nem sabia o que dizer. Eu tinha tanta certeza de que nada daria certo que o fato de realmente ter dado certo me pegou de surpresa.

Quando o Doutor veio me visitar ele contou que pensou muito na filha dele e que fez o que ele gostaria que alguém fizesse pela filha dele, disse que fez pontos internos e que a cicatriz era bem baixa e que eu nem ia ver ela lá. Esse homem é um anjo. Ele veio me ver todos os dias que fiquei no hospital e sempre preocupado com o meu psicológico.

Quando eu saí do hospital, 3 dias depois, a nova batalha era conseguir a injeção do Zoladex pelo SUS, pois uma dose desse veneno custava dois mil e quinhentos reais (sim, endometriose é doença de rico! :P)

Zoladex é um medicamento de uso injetável que tem como princípio ativo a Goserrelina e ele induz a menopausa. Geralmente uma dose tem duração de cerca de 3 meses, dependendo da dosagem. Para a minha sorte eu só precisaria de uma dose, para que o meu útero pudesse descansar em paz enquanto se recuperava da cirurgia, sem acabar ovulando e menstruando, o que poderia causar mais traumas ao tecido. Já tinha lido muito sobre esse medicamento na internet, outras mulheres falando de efeitos colaterais horriveis como: depressão, vaginite, instabilidade emocional (não que eu já estivesse totalmente instável!), espinhas, aumento ou diminuição das mamas, diminuição da libido, dor de cabeça, ondas de calor (tratando-se de menopausa, não podíamos esperar menos né?), ganho de peso  e queda de cabelo. Então eu estava bem apreensiva com esse remédio.

Admito que conseguir pelo SUS não foi tão dificil quanto eu imaginei que seria. Mas de qualquer forma quem tratou grande parte do processo foi minha mãe. Ela deu entrada nos formulários no posto de saúde, apresentou a requisição do médico e os laudos dos exames e da cirurgia e nós fomos lá tomar a picadinha.

Uma semana depois veio a terceira parte do tratamento pós-cirurgico. Coloquei um DIU Mirena. Esse DIU funciona de maneira diferente dos dispositivos intra-uterinos normais. Ele solta hormônios diáriamente, como se você estivesse tomando pilula. Com ele a mulher não menstrua, pois é igualzinho um contraceptivo que tem a cartela cheia (que se toma todo dia). Esse também não foi barato, custou 600 reais à época, mas ele tem validade de 5 anos. A ideia é que quando o efeito do Zoladex passasse eu não viesse a menstruar, pois para as portadoras de Endometriose, quanto mais se menstrua mais se agrava o quadro, pois mais endometrio está sendo gerado.

Funciona assim:

entenda-endometrioseFonte: Espaço Gestante

No capitulo 3 vou contar como ficou a minha vida após essa saga. Mas posso adiantar que existe vida após o diagnóstico de endometriose! Hahahaha

Mas precisamos tomar cuidado, quanto antes a doença for descoberta mais chances você tem de se tratar. Eu quase perdi o meu útero por falta de compreensão da doença por parte de médicos despreparados que me diziam que as dore que eu sentia eram “normais” da mulher. Não são!

O mês de março é o mês da conscientização sobre Endometriose, acho essencial continuar contando a minha história! Para que outras mulheres e homens saibam o quanto essa doença é maligna e machuca. Saibam o quanto nós ficamos frágeis e precisamos de todo o apoio; a dor psicologica causada consegue ser ainda pior que a física e precisa de atenção.

Beijinhos!

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